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C E NA

B.B. King: A vida é Blues...

Itta Bena, Mississipi, 16 de setembro de 1925: dia em que nasceria um ícone, na música: Riley B. King. Aparentemente, ele seria mais um sofrido negro trabalhador nas fazendas do sul/sudeste dos E.U.A..

No séc. XIX, aí reinavam os latifúndios algodoeiros, às custas do trabalho escravo. O algodão era exportado para a Inglaterra e para os estados industrializados do norte do país, de mão-de-obra assalariada. As divergências políticas entre as duas regiões e a vontade do sul de expandir a escravidão para o oeste levaram à Guerra Civil, em 1861/65. O norte infligiu pesada derrota aos estados do sul, obrigando-os a engolir a abolição da escravidão. Afundado na ruína econômica da guerra e da falta de braços escravos para a lavoura, o sul foi ocupado e dominado pelos vencedores. Administradores corruptos procuraram o apoio dos negros libertos (que agora podiam votar); e exploravam, roubavam o sul. Isso gerou ódio, nos sulistas, contra os nortistas e negros. Pouco antes, em 1831, o controverso cristão Nat Turner liderara uma sangrenta rebelião de escravos. Em 1859, o protestante branco calvinista John Brown tentou novo levante. Por isso, os sulistas temiam que a Abolição provocasse outras revoltas entre os negros, muito numerosos. Assim, depois de recuperarem a autonomia local, os brancos do sul passaram a controlar os negros através de organizações secretas violentas, como a Ku-Klux-Klan, surgida em 1867, linchando-os e sabotando os seus direitos políticos. Intimidados, os negros trabalhavam por baixos salários para seus ex-senhores, nas fazendas, pois não tinham muitas opções de emprego. No séc. XX, surgiram associações de resistência, como a NAACP, de 1909, que ganhou várias batalhas judiciais a favor dos negros. No geral, porém, estes continuavam separados da sociedade, mesmo sendo dez por cento da população nacional, nos anos vinte. A música era o seu triste lamento. O pobre garoto King, portanto, ajudava na colheita e, nos intervalos, cantava gospel na Pentecostal Holiness Church, igreja de origem metodista. Em 1937, aos doze anos, iniciou-se na guitarra, sob a orientação de seu pastor e de antigos manuais. É que seu pastor usava a música para avivar os cultos. King também trabalhou com um trator.

Pouco antes, em 1929, a quebra da bolsa de Nova York trouxera a Grande Depressão, a falência de cinco mil bancos e uma onda de miséria na nação mais poderosa do mundo. Eleito em 1932, o presidente Franklin Roosevelt fez amplas reformas sociais, chegando a ajudar diretamente aos pobres, através do programa de recuperação econômica "New Deal". Contudo, mesmo com o país se levantando, ainda existiam oito milhões de desempregados. King, lá pelos dezesseis anos, se apresentava na esquina da igreja e nas ruas, para descolar uns trocados; chegou a tocar em quatro cidades, por noite! Então estourou a II Guerra Mundial. Os E.U.A. entraram nela, após o ataque japonês a Pearl Harbour em dezembro de 41. (Os negros batalhavam em unidades separadas). A vitória aliada ocasionou aumento demográfico e imensa prosperidade ianque, na metade final dos anos 40. Mas as riquezas não eram para os negros, que também estavam em expansão populacional. Daí, eles intensificaram a sua saída do campo para as cidades (o que agravou o problema da marginalização racista). Não foi diferente com Ryley King que, em 1946, mudou-se para Memphis, cidade do Tennessee. Lá, morou com seu primo Bukka White, músico com certa fama local, que o ajudou a se aprofundar no blues, deixando o gospel. Para Memphis convergiam os exaustos artistas das fazendas do Mississipi e assim toda uma cena afro-americana se formou nela. Após procurar tocar nos clubes, King foi chamado por uma rádio para apresentar um programa. Era a sua vez! Para causar mais impacto, adotou o nome artístico "Blues Boy King" (mais tarde, B.B. King). O êxito no programa fê-lo alcançar o seu primeiro contrato com a Bullet Records, onde gravou dois singles, a partir de 49. Embora não fizesse muito sucesso, atraiu a atenção de outra gravadora, a Modern Records. Por ela, sairia, em 51, o compacto que o consagraria: "Three O’Clock Blues". Foram 15 semanas no topo das paradas, trampolim que o conduziria à Universal e posteriormente ao estrelato. Nessa mesma ocasião, uma luz brilharia para o seu povo: grandes líderes, como os pastores Adam Clayton Powell Jr. e depois Martin Luther King, se disporiam a enfrentar e vencer a maldição do racismo. (FC)


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